O brincalhão Exu, que entre outras coisas é o Mensageiro dos Orixás no Candomblé, tem origem na religião africana, de modo que apenas em um período posterior, na fase do sincretismo, foi reinterpretado e até marginalizado nos cultos afro-brasileiros, notadamente na Umbanda. Aliás, pela influência Católica na colonização e formação político-social do Brasil, Exu foi associado com o demônio mesmo antes da fundação da Umbanda. Nessa religião, entretanto, essa figura foi complementada como entidade maligna. Exu se tornou o representante do demônio, do perigo e da imoralidade. Por causa dessas características, parece que os primeiros umbandistas o associaram com africanos e escravos rebeldes. Exu foi, portanto, segregado da Umbanda, e se tornou o legislador da Quimbanda, do submundo[3].

Outra interpretação umbandista coloca Exu na ordem evolucionista de precedência, conforme o modelo kardecista. Ele é reduzido a um espírito menos evoluído, que todavia tem potencial para evoluir e se tornar um espírito bom. Alguns umbandistas distinguem entre Exu pagão e Exu batizado, que se submeteu à doutrinação e encontrou o caminho certo da escada da evolução. Essa distinção reflete algo do caráter original ambivalente de Exu, apesar do rito de passagem do batismo, que define a distinção que é certamente nova. Novamente esse batismo do Exu pagão tem sido interpretado como uma expressão e aculturação e domesticação do mal, do perigo e da imoralidade.

Há ainda outra interpretação que considera os exus como entidades espirituais com a mesma evolução das demais entidades, como caboclos e pretos-velhos. Não havendo, portanto, a noção de que eles são pouco evoluídos ou que se dedicam à prática da magia negra.

Há quem creia que os Exus são entidades (espíritos) que só fazem o bem e outros que creem que podem também ser neutros ou maus. Dividem-se, de acordo com uma hierarquia espiritual, em falanges, sub-falanges, grupos e sub-grupos. Observa-se que, não raro, os médiuns dos terreiros de Umbanda, e mesmo de Candomblé, não têm uma ideia muito clara da natureza da(s) entidade(s), quase sempre, por falta de estudo das religiões. Na verdade, essas entidades não devem ser confundidas com os chamados obsessores. Apesar de inseridas na mesma Linha das Almas, sendo o seu dia devotado a segunda-feira, ficam sob o seu controle os espíritos mais atrasados na evolução, que são por eles orientados para que consigam evoluir através de trabalhos espirituais feitos para o bem.

Exu Meia-Noite

O poder de se comunicar confere a ele também o oposto, a possibilidade de desligar e comprometer qualquer comunicação. Se possibilita a construção, exu também permite a destruição. Esse poder foi traduzido mitologicamente no fato de habitar as encruzilhadas, cemitérios, em suma, as passagens. Portanto, os diferentes e vários cruzamentos entre caminhos e rotas lhe faz o senhor das entradas e saídas.

Há algumas diferenças na maneira de conceber o exu no Candomblé e na Umbanda. No primeiro, é como os demais orixás, uma personalização de fenômenos e energias naturais. O Candomblé considera que as divindades, ou seja os orixás, entram em transe nos médiuns, intitulados cavalos ou aparelhos, mas não há consultas. Apenas se manifestam nas festas devidamente caracterizados e paramentados. Já na Umbanda, o exu é uma entidade que normalmente incorpora e promove consultas incorporado em seu médium, como outras entidades, tais quais, os caboclos, pretos-velhos, crianças, os falangeiros de orixás, também denominados mensageiros, e outras várias entidades.

A Umbanda considera os exus como entidades que buscam, através da caridade, a evolução espiritual. Em síntese, o grande agente mágico do equilíbrio universal. Também é o guardião dos trabalhos de magia, pela qual opera com as forças do astral. E também são considerados “policiais”, “sentinelas”, “seguranças” que agem pela Lei, no submundo do “crime” organizado e principalmente policiando seu médium médium no seu dia a dia. As falanges de exus sempre estão nas zonas consideradas infernais, embora delas não façam parte. Com efeito, realizam os seus trabalhos de guarda em todas as partes onde são necessários. Certos exus guardam entradas de hospitais, necrotérios e cemitérios para impedir que kiumbas, espíritos sem evolução, de natureza vampiresca e zombeteira, se alimentem do duplo etéreo dos que estão à beira da morte ou daqueles que desencarnaram recentemente. A força vital permanece nos corpos sem vida e não deve ser sugada para alimentar almas que desejam praticar o mal. Esses espíritos devem ser impedidos de qualquer maneira. Participam também do resgate de almas localizadas em zonas inferiores, os chamados umbrais.

O plano astral também é morada de miríades de espíritos que perseveram no mal. Alguns deles estabelecem uma prática na espiritualidade de obsidiar desencarnados e até encarnados. O trabalho dos exus é não permitir que consigam influenciar espíritos e pessoas vivas a ponto de elastecer seus tentáculos e criar verdadeiras frentes de maldade espiritual e material. Esse combate é árduo e permanente. Os exus chefes de falange podem ser equiparados a verdadeiros generais que promovem vigília e combate, além do comando de inúmeras falanges.